Considerando a apresentação de novos
artistas para a
militância no sistema de arte como um dos papeis mais
relevantes
que uma Galeria poderia exercer no atual contexto cultural, acreditamos
estar neste momento contribuindo a nossa maneira com a mostra de
pinturas de Chrystiane Correa. Este fato consiste em mais um
esgarçamento do nosso horizonte visual e este é o
objetivo da Galeria Lana Botelho. Deparar com a realidade frontal
proposta pelas imagens pictóricas de Chrystiane Correa e
conviver com a possibilidade de situar-se além da opacidade
estabelecida pelo primeiro olhar. Um sistema dialético
aparentemente simples, que transita entre uma
noção de
ordem e de caos, acaba produzindo uma complexidade estrutural que se
assemelha à rudeza implícita no
caráter
proliferativo e entrópico da floresta tropical sul-americana.

Longe da possibilidade de domesticação, as
imagens de
Chrystiane exercem sua expressão sem nenhum limite,
expandem-se
em todas as direções, redefinindo constantemente
seus
referentes, inviabilizando qualquer chance de
precipitação de leitura, ou apreensão
de sentidos.
Sua pintura é o verdadeiro embaraço para ao
olhares mais
racionais. Seu território poético se estende pelo
conjunto das sensações descabidas e das
emoções sem controle. Rousseau e os Fauves
não
seriam nenhum exagero de referencia frente à realidade
explosiva
que sua pintura contem e pode desencadear. A obra desta pintora
suscita-nos, de imediato, uma sensação de
força.
Somos levados a reconhecer a presença de uma carga
energética que coloca todas as nossas certezas em cheque.

Não se trata aqui de um desejo de
delimitação de
um território poético, mas sim da
destruição consciente de qualquer tentativa de
construção de um campo identitário
fixo. O
trabalho de Chrystiane Correa não pretende discutir uma
possível noção de identidade, mas
estabelecer um
procedimento aberto, que nos permita pensar sobre alguns momentos de
identificação.Tal magnitude de
propósito e coragem
só pode ser encontrada no trabalho daqueles que ainda
são
livres e puros. Enfim, o encontro com tais imagens planares, deixa-nos
a certeza da existência de uma substancia investigativa, que
se
inclina na direção dos grandes temas,
visualidades que
circundam o encontro entre a dimensão humana e a grandeza do
cosmos.
